estuprada ao dar a luz

O que os homens pensam sobre o estupro de ontem? Me refiro ao estupro de uma mulher na mesa de parto, durante uma césarea.

Acompanhem o cenário. Ela está sedada e o monstro coloca seu pênis na boca da parturiente. Enquanto o pai da criança acompanha o bebê, o monstro busca prazer naquela mulher vulnerável. Se movimenta “escondido”.

10 minutos de tortura. 10 minutos. Um pênis na boca de uma mulher inconsciente. 10 minutos. Ele goza. Passa uma gaze, e pronto.

É tanta barbaridade que fica ressoando aqui dentro. Gatilhos, memórias, e muito silêncio nessas redes, para além de nós mulheres.

Se não fosse aquelas enfermeiras… ele continuaria praticando crimes, como está provado, cometeu antes. E quantos continuam por aí praticando outros crimes?

E a equipe médica nunca desconfiou de parturientes sairem sedadas do parto? Nunca desconfiaram da movimentação desse homem, desse monstro que passou por 10 hospitais do Rio de Janeiro. 10!

E a golden hour, a amamentação no primeiro momento, a companhia permanente à mãe dentro do centro cirúrgico? Foram muitas as violências praticadas contra a mulher e o recém-nascido. Incontáveis.

Homens, parte da sua espécie está nos matando física e emocionalmente. Dia a dia. Em todo canto.

E Talita estava ali na cadeia

Sentada com sua havaiana, camiseta branca e calça cáqui contando-me sobre sua longa história. Uma história que cabe num filme de aventura ou drama, temperada pelo desejo de recuperar aquilo que foi um dia. Contada com um fôlego e uma rapidez que me faz pensar que seria difícil mentir tanto e tão rápido.

Enquanto eu a entrevistava, uma outra jovem se aproximou de nossa conversa. Era Milena, que também responde processo por tráfico e associação ao tráfico.

Mas eu ainda estava com Talita. “Fui presa dia 22 de novembro, o meu avô faleceu em acidente de carro e minha avó não respondia mais as minhas cartas, porque já era minha quinta cadeia. Ela cansou e eu entendo”.

Ela lembrou, que nas primeiras cadeias, a avó se dividia para garantir o jumbo dela e do irmão que cumpria pena em São Bernardo do Campo.

“Na minha primeira cadeia ela trazia jumbo pra mim. Na segunda, ela me visitou um ano e quatro meses na penitenciária do Estado, me mandava jumbo via sedex. Na terceira cadeia ela já baqueou, falou pra mim que infelizmente eu tinha que sofrer um pouco”.

– Você concorda com ela? – Perguntei.

– Concordo sim.

“É um trampo muito grande para a minha avó. Ela tinha as despesas da casa, eu presa e o meu irmão preso. Foi um ano e quatro meses assim. Tinha vezes que ela ia ver meu irmão no sábado e eu no domingo. Ela puxou cadeia junto comigo. Fiquei quatro meses na terceira vez. Saí e nem fui em casa, fui direto para a Cracolândia”, disse de cabeça baixa, com as mãos agitadas.

Um trecho de meu livro, O Peso do Jumbo. Neste dia estava com Luciney Martins responsável pelas fotos, a quem agradeço os registros e apoio, sempre.

Você encontra meus livros na loja virtual da @editorapaulus e nas boas livrarias.

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