Conheça esta Maria antes de 2022

Nestes dias em que o calendário parece perder um pouco o sentido e a ordem, as gavetas, os armários e projetos são revisitados, não é verdade? Aproveitando este aparente lapso temporal, te convido a ler meu último trabalho publicado: uma conversa que tive com Maria Fonseca, artista sacra cearense que segue de mala e pincéis pelo país pintando belezas em espaços sagrados. A reportagem escrita em estilo perfil está aqui no site da Agência de Notícias Signis.

Confira um trechinho…

A rotina do seu trabalho inclui um café da manhã que pode ser na casa paroquial, de alguém da comunidade ou em um hotel de alguma cidade deste imenso país, o que determina também seu cardápio: ovos, inhame, pãozinho na chapa, pão de queijo, açaí, um peixinho, tudo varia e acompanha o sabor e o sotaque local.

Após um trajeto feito a pé, carro ou barco, Maria chega à igreja. Diante da “tela” em branco, que pode variar de tamanho, traça o sinal da cruz, sobe os andaimes e, acompanhada por pincéis, tintas e seu celular, inicia seus desenhos. Antes, contudo, aciona a playlist de músicas que a inspiram na arte de dar concretude ao mistério do encontro com o próprio Deus. Celina Borges e Ziza Fernandes são alguns dos nomes que a acompanham em sua atividade.

“Eu entrego meu trabalho a Deus. Aí eu coloco uma música católica que tenha a ver com o que eu estou produzindo. Coloco uma música para que eu chame o Espírito Santo. Não é só a emoção, às vezes eu intercalo com áudios de passagens da Bíblia pra ouvir a passagem bíblica daquilo que eu vou criar. Eu tenho várias Bíblias de estudo e com várias traduções, e isso ajuda também a atentar aos detalhes”, reflete.

Rondônia sofre com as cheias do Rio Madeira

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Ruas do Centro de Porto Velho (RO), alagadas pelas águas do Rio Madeira.

O estado de Rondônia ainda sofre com as cheias do Rio Madeira, que subiu cerca de 20 metros nos últimos três meses. Na capital, Porto Velho, 21 ruas estão intransitáveis, debaixo d`água. O comércio, repartições públicas, casas e praças, entre elas a Praça da Estrada de Ferro Madeira  Mamoré, que guarda um patrimônio cultural e histórico do Brasil, esperam a água baixar para que a vida volte ao normal.

O ribeirinho Raimundo Oliveira da Costa, 65 anos, perdeu seu sítio, localizado na Comunidade Niterói, no baixo Rio Madeira. A água levou suas plantações, seu sustento. Atualmente vive de favor com o filho na casa de um parente e ganha dinheiro levando turistas e curiosos para conhecerem a nova realidade da cidade submersa.

“A água chegou na minha casa no dia 20 de fevereiro e desde então eu moro na casa de um primo meu. Até agora eu não tive ajuda de nada, recebi uma cesta básica que me disseram que de 15 em 15 dias iam entregar. Mas já faz quase um mês que fizemos o cadastro”, disse o ribeirinho enquanto guiava a equipe de reportagem na canoa, entre as ruas de Porto velho.

“Com isso aqui [referindo-se ao trabalho], dá para fazer um dinheirinho. Tem dias que faz R$ 100, até R$ 200, mas tem as despesas também. Se não fosse isso como é que eu ia viver?”, questionou Raimundo, que nasceu e cresceu à beira do Rio Madeira. O ribeirinho é uma das cerca de 20 mil pessoas atingidas pela cheia.

Foto: Joaquim Souza | Praça da Estrada de Ferro Madeira  Mamoré
Foto: Joaquim Souza | Praça da Estrada de Ferro Madeira Mamoré

A Arquidiocese de Porto Velho está em campanha há mais de três meses para arrecadar e distribuir cestas básicas, roupas e móveis aos atingidos. O coordenador da campanha, padre Miguel Fernandes, pároco da Paróquia São João Bosco, que se tornou ponto de referência aos atingidos e acolhe 12 famílias, fala do trabalho da Arquidiocese, que já entregou mais de 40 toneladas de alimentos.

“Já são três meses nessa angústia e o rio cada vez sobe mais. É assustador. São vários distritos isolados. A BR 364 [rodovia] está alagada. São milhares de pessoas que perderam o seu referencial, estão fora de suas casas, perderam tudo”, disse o padre, que é referência, inclusive aos órgãos públicos, no amparo aos desabrigados e na logística de entrega dos mantimentos.

Há dois meses vivendo no improviso

Rovilson Denic Nunes é um dos atingidos pela cheia histórica. Casado, pai de seis filhos, encontrou abrigo na Paróquia São João Bosco, na região central de Porto Velho. Sua casa, localizada no bairro Triângulo, está alagada e suas crianças não frequentam a escola há mais de dois meses.

Foto: Joaquim Souza | Raimundo Oliveira ganha dinheiro levando turistas até o centro alagado
Foto: Joaquim Souza | Raimundo Oliveira ganha dinheiro levando turistas até o centro alagado

“Faz dois meses que estamos aqui. Foi rápido demais quando a água chegou, nós não esperávamos. A gente não queria sair, confiamos que a água não ia chegar, mas ela está lá acima do teto da minha casa”, disse Rovilson, em sua cama improvisada no ginásio da paróquia. “Disseram que não ia acontecer nada com a gente, porque fizeram uma contenção de pedra, mas a água começou a minar pela barragem de pedra, a ponto de estourar e pegar todo mundo dormindo dentro de casa. Perdemos móveis, o guarda-roupa que eu tinha, tudo o que eu tenho está aqui”, disse o paranaense, há 22 anos em Rondônia.

Para o Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB), o acúmulo de água nos reservatórios e o aumento da vazão dos vertedouros das usinas de Santo Antonio e Jirau potencializaram os alagamentos naturais do período e estes agora atingem áreas que antes não sofreriam alagamento. Procurado, o Consórcio Santo Antonio Energia preferiu não se pronunciar sobre o tema.

Nesta sexta-feira, mais uma embarcação da Defesa Civil da Prefeitura de Porto Velho desce o Rio Madeira para levar alimento e medicação às famílias que estão ilhadas e acampadas em distritos banhados pelo rio. Nossa equipe de reportagem acompanhará esta ação.

A jornalista Karla Maria é enviada especial a Porto Velho (RO) pela Revista Família Cristã/Signis Brasil.